Um suspiro em 2012

“Não Adianta, a paz não é suficiente. Já se perguntava Riobaldo: ‘Se a paz é boa? Então como é que ela enjoa?’. Acho que os corajosos e lúcidos devem rezar assim: Senhor, protege-me das prisões do comodismo, da platitude e da estagnação. Dá-me coragem, loucura e tesão para viver sem medo de mim e dos meus sonhos. Dá-me asas e ventos, insônias e angústias, inquietações e algum sofrimento, para que eu possa dizer sim à Vida.

Coragem é a maior das virtudes. É preciso muita coragem para esse viver tão perigoso, principalmente quando o perigo está na acomodação e na segurança. Sim, existe grande risco para a alma quando nos sentimos aprisionados por nossas conquistas, nosso cotidiano tão bem organizado, nossos scripts engessados. É como olhar o oceano por uma pequena janela, ver apenas uma nesga do horizonte, e acreditar que a imensidão está dentro das paredes e não explodindo fora delas. É como traçar voos dentro de gaiolas luxuosas, e tentar se convencer de que o brilho das coisas tangíveis é mais bonito que o das estrelas ermas no céu.

Se, por um lado, queremos tranquilidade, proteção e prosperidade, por outro, queremos plenitude, renovação e vertigem. Somos híbridos, feitos de muitas matérias e vocações: parte, como os minerais e vegetais, que se confundem com a terra e nos fazem assentar, e outra parte, como os sonhos e os deuses, que nos arrancam das nossas vidas previsíveis e nos elevam. Somos alternância entre escassez e abundância, lacuna e transbordamento, assentamento e desassossego. Somos inconstantes, graças à vida!

De repente, sua vida está perfeita como num anúncio de margarina, mas você se sente desmotivada e desperdiçada. É como se a vida de verdade estivesse acontecendo lá longe, e você estivesse à margem, assistindo de camarote, sem dançar. De repente, você chega ‘lá’, mas não está satisfeita. De repente, você se lembra daquele mestrado que você adiou; do ano sabático que você sempre quis tirar; ou simplesmente, tem  uma ideia louca, e pensa: “Por que não?”. De repente, você percebe que sua vida envelheceu ou estagnou, que você até gosta da sua vida, mas sente uma incompletude, uma vontade de gostar dela mais ainda. Não há nada errado com você. Muito pelo contrário. É pura sanidade.

Se a paz é respiro e refrigério, a paixão é movimento e animação. Pode ser paixão por alguém, por uma ideia, um projeto, mas melhor ainda quando é pela própria vida. A paixão pela vida nos dá coragem, nos transforma em quem queremos ser, nos arranca da mediocridade, da mesmice e nos convoca a reescrever novos capítulos.

Acho que os sonhadores e os travidos deveriam rezar assim: ‘Desperta-me, Senhor! Sopra-me palavras inéditas, inspira-me com lampejos e intuições. Tira-me do sério, dos trilhos, da forma. Dá-me sobressaltos e suspiros, desvarios e fome. Dá-me plena posse de mim mesma, para o bem e para o mal.’

O inconformismo é como uma canção interna, que faz você lembrar quem você realmente é; é como um rio, que, mesmo represado, intui o mar. É esse anseio, essa borbulha na alma, que nos faz buscar o novo, o movimento, o entusiasmo; que  nos faz trocar a monotonia das horas e a opacidade do olhar pela aventura das novas escolhas e a ousadia de dar guinadas no caminho.

Gosto de pensar que, quando assumimos chamados, aceitamos desafios, viramos a mesa ou apenas invertemos a ordem das nossas rotinas ou trocamos a cor dos nossos cabelos, estamos dizendo sim à vida, beijando a vida na boca, apaixonadamente. São pequenos ou grandes gestos, mudanças profissionais, rompimentos, ajustes de rota, faxinas, decisões de Ano Novo, quebras de parâmentros, loucuras, alforias. O que você ganha? Brilho no olho,  inteireza da sua alma, delícias e agonias de ser dona da sua vida, e poder recitar Henley com o Nelson Mandela: “Sou o mestre do meu destino, o capitão da minha alma”

Acho que os destemidos e os ávidos deveriam rezar assim: ‘Assombra-me, Senhor! Não permita que eu me afaste do que me identifica, que eu esqueça o que me alegra ou cale o que me traduz. Insufla-me, instiga-me, exige-me ser. Livra-me dos boicotes e adiamentos que eu mesma me imponho. Dá-me paz e paixão, alternadamente, como a chuva e a estiagem – já que uma só existe quando a outra desiste. Faz-me entender que há mais dano no medo de viver que no medo de morrer.’

Cada vez que dizemos sim à vida ou pelo menos, por que não, fazemos girar a roda da fortuna, expandimos nossos limites, reconhecemos-nos nos espelhos da alma e, depois, exaustas e felizes, sorrimos para nós mesmas. Lá estamos nós, inteiras! Inspiradas e apaixonadas, mais uma vez.”

Hilda Lucas

Feliz Ano Novo e, 2011.. me deixa!

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