É aqui que eu tomo minha cervejinha.

E aí que as primeiras lágrimas caíram sobre seu rosto.

Não sabia se era de alívio ou de arrependimento. E ela saiu pra andar, andar devagar sem saber para onde estava indo, como quem não tem pressa de chegar. E começa a ter medo da solidão, tenta desesperadamente voltar a gostar da sua própria companhia, como quem vive a vida num barco a vela e não em um barco a motor que tem um ponto de saída e outro de chegada. Lembra da vez que ele disse: “a calça da folgada hahaha” entrando em sua casa para conversar sobre se poderiam ou não voltar a ser amantes. Aquela calça era testemunha do sofrimento que ela enfrentou durante meses e mesmo assim ele riu. Aquilo talvez fosse um sinal da eterna falta de respeito pelos seus sentimentos, mas mesmo assim ele riu. De joelhos e chorando fez um pedido agoniante que significava ‘seja minha namorada de novo’ e quem não dá o braço a torcer ao ver essa cena? “se você não quiser casar e ter filhos, por favor me deixei livre” disse ela. “apesar da minha vida ser louca, eu também quero ser normal”. Aos soluços ele concordou “com você, eu quero.” Mas no fundo ela sabia,sempre soube que não daria certo. Chegava a cogitar se anular profissionalmente para se tornar dona de casa, tipo a esposa de jogador de futebol. Deixou de acreditar que era capaz de conquistar o mundo e passou a confiar apenas no talento dele, talento que só conheceu anos depois quando ele precisou atuar, ao vivo, pra ela. E os seus amigos sempre perguntavam “onde está Wagner moura?” porque estava claro que ela seria sempre a estrelinha apagada que se reservaria no direito de não brilhar mais que o marido, afinal alguém sabe quem é a esposa de Wagner Moura?

Depois de um tempo ela começa a sentir falta do romantismo, da rosa, das músicas no youtube, do ovo com orégano. E reclamava, achava que deveria e se esforçava a acreditar quando diziam: “isso é normal depois de um tempo.” Não, não era. Não pra ela que vivia em filmes, que sempre teve um buque de rosas quando assistia wall-e. E com o tempo começava a sentir falta de ter uma experiência nova, de conhecer uma nova pessoa, de trocar mensagens, “depoimentos”, das borboletas na barriga mesmo, do primeiro encontro. Mas aquilo era nostalgia que ela julgava ter de uma época que não volta mais, portanto, era melhor parar de sentir falta porque isso não iria mais acontecer, já estava velha demais pra isso e já tinha achado o seu, era o seu? Achava que sim, todos diziam: Vocês foram feitos um para o outro, até que a gente acreditou. E tinha mais certeza quando tínhamos conversa sobre o futuro, que futuro? Muito mais interessante conversar sobre arte, cinema e como as casas antigas eram lindas. Ele a ensinou a gosta de tomate seco e como ser um modelo de ser humano que ela definitivamente não queria ser, mas os opostos se atraem não?

Ele nunca a pediu em namoro, nem muito menos pediu para acabar. Seus pedidos sempre foram impostos e sempre da maneira mais dolorosa possível para que ela, cega, finalmente entendesse. Nunca lutou por nada, então por que lutar por ela? Preferia seu colchão, sua TV e o ventilador, afinal terá isso para sempre, porque se um quebrar, sempre terá outro pra substituir, assim como ela.

“Onde você quer comer? Não sei” Por favor, escolha pelo menos onde vão comer. “Eu queria ter escutado de você: ‘eu quero que você vá pra lá’ e eu quero escutar de você “eu vou sem você me pedir”. “Tu já parou pra pensar que esse é o teu papel na vida dele?” Em todas as decepções ela se lembrava dessa frase e conseguia forças para continuar. Mas ele não era o que ela precisava.

Certa vez, chorando em seu colo ela disse: quero desistir de tudo, quero voltar pra casa. Em silêncio ele ficou. Muitas lágrimas depois ela escutou sua voz dizendo “se é isso mesmo que você quer, volte.” Ela não deixaria ele desistir por nada nesse mundo, mas por ele, ela desistir tudo bem. Vai saber. Hoje ela entende que o que ele mais queria era isso, pra poder finalmente ser livre, mas não sabia como ser livre sem se livrar dela. Mas ela não entendia, nos últimos meses começou a receber sinais (sinais.) de que ele a queria pra sempre, de verdade, como nunca ela havia imaginado. De verdade para alguém que sempre ameaçada fugir no primeiro sinal de crise. E se empolgou, falou que um dia iriam comer no restaurante chinês e ele completava: “e seremos fotografados saindo de lá, assim…” encenava. Por mais que ela tentasse, ela não conseguia ver como isso seria possível. Como dançar ao som de The Smiths se ela não o via ali? Forçava a sua mente a aceitar que era ele, mas não era. Certa vez sonhou que o homem da sua vida protagonizaria um vídeo ao seu lado com aquela musica que diz assim: “do u wanna get married or run away?” run away. Seu orgulho era maior do que a certeza de que estavam fadados ao fracasso.

No final ela escolheu  a felicidade em lugar do sofrimento, criou espaço para o futuro desconhecido, para que ele, o futuro, encha sua vida com surpresas que ainda estão por vir. Por mais imperfeita e atordoada que a vida dela possa parecer, ela combina com ela, de alto a baixo. Ela nem sequer tem endereço, e isso é uma espécie de crime contra a normalidade. Finalmente pode ir aonde ela quiser.

E aí que foi a última vez que ela tocou em seu nome.

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3 comentários sobre “É aqui que eu tomo minha cervejinha.

  1. Anonima disse:

    Eles não se mereciam. Ele não era lá essas coisas.. olhava para as outras como quem pedia socorro.. um socorro que o tirasse daquela vida que ele ainda acreditava não ser o que sempre sonhou pra si. Olhava para as outras como se questiona-se “será que é você?”. Ele não a merecia. Não estava satisfeito com ela. Mesmo ela sendo aquele pedação de mulher.

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