Calma, alma minha, calminha.

Aquele sofá amarelo e velho já escutou tantas. Tantas desilusões, tanta vontade de ser feliz, tanta solidão. Eram tantas palavras perdidas, amores e confidências. Aquela solidão apertada ficava mais aliviada naquele sofá, que também já escutou risadas altas, fofocas e festinhas.

Uma cidade tão grande, um caminho tão extenso e um apartamento pequeno. Um desafio de tentar ser feliz dentro do seu próprio eu, eu, eu, eu. Eu posso, eu consigo, eu não preciso de ninguém. Sabia que “a maior coisa do mundo é saber pertencer a si mesmo”.

Saiu de casa pela primeira vez aos 19 anos, foi feliz, muito feliz. Sabia que queria aquilo pro resto da vida mas precisou voltar, um surto de sensatez a fez voltar e foi bom enquanto durou. Aprendeu, cresceu e se libertou. Ainda tem o coração ferido de saudades daquele tempo onde era mais fácil sorrir, tudo era diversão, frio e carinho.

Viajou, várias vezes. E de repente aquela certeza se transformou em dúvida e depois em medo. Seria ela a única responsável pela sua felicidade? Seria aquilo? Seria lá? Será que todo dia vai ser sempre assim? ♫

Já não tinha nada a perder, queria ganhar, muito. Mas deixou o pé preso… se soltou. Foi feliz, bem feliz depositava em sua liberdade toda a sua alegria mas havia tanta liberdade que cansou, dá pra entender? Cansou. Mas procura em si a companhia que sempre buscou, em si, em livros, em filmes, em músicas, algumas vezes em amigos, sempre em Deus. É preciso muito autoconhecimento para se aguentar, ter paciência e entender que para tudo existe um tempo, um local e um modo.

As músicas machucam as atualizações de status também. Machuca a decepção que num dá, ta longe, ta sem papo, não quer. O que foi que aconteceu? Ela nunca saberá.

A  água da chuva desce a ladeira.  
      É uma água ansiosa.  
Faz lagos e rios pequenos, e cheira  
      A terra a ditosa.  

Há muitos que contam a dor e o pranto 
      De o amor os não qu’rer… 
Mas eu, que também não os tenho, o que canto
      É outra coisa qualquer.

                                                            Fernando Pessoa – 21 – 3 – 1928
Mas ainda bem que há Vinícius que fala pra ela que “A maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a dor do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana. A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo,
o que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro. O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e ferir-se, 
o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes de emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto de sua fria e desolada torre.”
—-

Ó, deixa eu te contar, senta aí nesse sofá…

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